Um pouco da História da região contada pelo escritor Gustavo Praça

Fomos Descobertos há 250 anos

Por Gustavo Praça

Se o Brasil tem 500 anos na visão da cultura ocidental - que não considera a milenar história indígena -, a região do médio Paraíba, onde se insere Penedo, tem apenas cerca de 250 anos. Foi no meio do século XVIII que os homens brancos chegaram à região de Resende e Itatiaia, vindos de Minas pelas montanhas, através de Aiuruoca, possivelmente pesquisando novos caminhos para o contrabando de ouro das Minas Gerais.
Chegaram em meados da década de 1740 chefiados pelo coronel paulista Simão da Cunha Gago, que quando divisou a grande planície que se estende às margens do Paraíba, onde hoje é a cidade de Resende, chamou o lugar de “Campo Alegre”. Era um tempo em que os comerciantes de ouro (os oficiais, com aval do governo português, e os contrabandistas) tinham que cruzar a Mantiqueira, o rio Paraíba e a Serra do Mar para chegarem aos portos do litoral - Rio de Janeiro, Mambucaba, Parati, Angra e outros.
Simão fundou aqui um povoado, e em 1747 estabeleceu-se a “Capela Curada” sob invocação de Nossa Senhora da Conceição. O povoado foi batizado então com um nome extenso e muito bonito - “Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova” (Paraíba Nova porque já existia Paraíba do Sul, no município do mesmo nome).
Poderíamos ter continuado com este nome, bem melhor que o de “Resende” dado em homenagem ao conde de Resende, responsável direto pela execução brutal do maior de nossos heróis, Tiradentes. E a Paraíba Nova iniciou a vida como um entreposto dos caminhos do ouro, com ligações com Minas através da Mantiqueira e com o Rio de Janeiro.
Antes disso, a povoação mais próxima era Taubaté, também nas trilhas do ouro e plantando cana-de-açúcar para a capitania de São Vicente (hoje São Paulo), sem qualquer ligação por terra com a corte do Rio de Janeiro. Ou seja, as terras onde hoje ficam as cidades de Queluz, Itatiaia, Resende, Barra Mansa, Volta Redonda e outras eram, até então, habitadas apenas por tribos do grupo étnico e linguístico dos Jês, onde se inserem os puris, que moravam nessa área.
Puri significa gente pacífica. Eram nômades, circulando pelo vale numa vida de coleta, caça e pesca; às vezes uma agricultura rudimentar, trocando constantemente o local da roça e, portanto, da morada.
É interessante pensar nesses 250 anos como três vidas de cerca de 80 anos. Parece pouco tempo para as tantas mudanças por que a região passou. Com os ciclos do café e depois da pecuária (do ciclo do ouro só vivemos o final) destruímos não só os índios como também quase toda a mata. Hoje nem passa pela nossa cabeça a imagem do vale do Paraíba coberto na maior parte pela Mata Atlântica, mas já foi assim. A infinita paisagem de morros pelados não esteve sempre ali.
No que diz respeito à área estrita de Penedo, se continuarmos imaginando as três vidas de oitenta e poucos anos, teremos, na primeira, um local semi-paradisíaco, “semi” porque os colonizadores fizeram guerra sistemática aos índios, caçando-os onde estivessem até vencê-los. Há pouca informação sobre os índios, pois não interessa ao branco registrar seus próprios pecados, mas há evidências de que a maior parte deles foi exterminada com a difusão intencional da varíola. Seus corpos eram jogados aos montes no rio Paraíba: a primeira poluição que o rio veio a conhecer, e a mais grave, por isso “justificadora” de todas as outras.
Os que restaram foram controlados em três aldeamentos: um próximo à cachoeira da Fumaça (Resende), outro em Valença e o terceiro em Queluz (primeira cidade do estado de São Paulo, saindo-se de Resende).
É sintomático notar que esses aldeamentos eram chamados “reduções”, e que a palavra redução serve tanto para indicar o número pequeno e controlado de indivíduos como também o empobrecimento de uma cultura que dominava a técnica de extrair a vida da mata convivendo com ela, coisa que nunca foi considerada por nossos antepassados europeus como algo a ser aprendido.
É interessante assinalar, sobre esta época, a estória do “Mongo Velho”, transmitida oralmente a JB. Mello e Souza, que a contou no volume “Histórias do Rio Paraíba” depois de confirmar dados nos livros da igreja Matriz de Queluz. O Mongo (chefe) era um índio de nome Vuitir que falava alguma coisa de português, foi batizado com o nome de João Batista e convenceu cerca de 80 famílias indígenas a abandonarem a serra para virem morar na redução de Queluz, recebendo dos brancos a promessa de que ninguém seria escravizado ou maltratado.
Pouco tempo depois, quando chegou a Queluz um grupo de escravos postos a ferros e tratados a chibatadas, Mongo Velho protestou, gritava que tirassem os ferros, as autoridades de Queluz lhe diziam que negro não era como puri, ele não aceitava e, não sendo atendido, tirou do corpo a roupa que então já vestia e embrenhou-se outra vez na mata para nunca mais aparecer, acompanhado apenas de um outro índio já que a maioria optou por continuar na redução de Queluz.
Na segunda vida de oitenta e poucos anos Penedo é uma fazenda de café, pertencente à grande fazendeira Maria Benedita Martins, chamada “Rainha do Café do município de Resende”. Sobre ela, conta o professor Marcos Cotrim de Barcellos em seu trabalho “Chronica Itatiaia Magistris Ejus”: “Suas fazendas, trabalhadas por mais de 1.000 escravos, se estendiam das atuais Fazenda da Serra e Penedo, até as do Tanque, Babilônia e Palmeiras, na outra margem do Paraíba, interligadas por linhas telefônicas. Sua casa na cidade era o sobrado da esquina da Rua 15 de Novembro com a atual Praça Oliveira Botelho, onde funciona há muito tempo o Mercado Netinho”.
Das senzalas da Fazenda Penedo, que ficavam um pouco abaixo do casarão e do atual Largo Finlândia, não existe mais vestígio.
E finalmente, na terceira parte desses 250 anos, Penedo vive a colonização finlandesa, outra estória riquíssima, centrada num filósofo místico e vegetariano que sonhava construir nos trópicos uma comunidade que vivesse harmonicamente com a natureza, alimentando-se principalmente de frutas e sem o espírito guerreiro que a dieta carnívora trazia, segundo seu entendimento.
Toivo Uuskallio era carismático, tinha o poder do convencimento e conseguiu trazer muita gente para o sonho do paraíso. No início, década de 30 do século passado, moraram todos juntos no casarão da Fazenda Penedo, o mesmo da Maria Benedita, no mesmo lugar onde, tantos anos antes, certamente índios puris se banharam no poço do rio das Pedras que fica logo atrás da construção.
O sonho de Uuskallio de uma comunidade agrícola-vegetariana auto-sustentável não se concretizou. Penedo acabou encontrando no turismo a sua vocação, para o que contribuiu muito a presença dos finlandeses com seu artesanato, sua sauna, seus pintores e suas casas que funcionaram como os primeiros hotéis.
E também por essa época, a passagem que mais me emociona de toda essa história: um pequeno clã de lavradores autóctones que se instala na parte alta de Penedo em meados do século passado. Cerca de oito famílias aparentadas que, essas sim, viviam praticamente do que produziam. Uma gente mestiçada de índio, branco e negro, formadora do cerne do que é hoje o povo brasileiro e detentora de uma cultura de subsistência que vai sendo destruída em toda a parte pelo movimento concentrador do capital. Uma gente que derrubava mato para plantar, mas com critério, deixando a mata renascer nas roças velhas, um pouco ainda como os índios. Uma gente da qual faziam parte Aníbal e Irani, os personagens da primeira crônica deste livro.

Gustavo Praça é escritor e jornalista.

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